domingo, 8 de maio de 2011

Diário Comenius (dia 6) - “Adeus Secovce!”







Sexta-feira, 18 de Fevereiro

Há alturas em que não é preciso muitas palavras para descrever as coisas que vivemos. Agora que a nossa estada aqui chegou ao fim, esta é uma altura que nos custa a todos. Em meia dúzia de dias, pessoas que antes eram desconhecidas umas das outras, desenvolvem laços de amizade que nos preencherão a memória por muitos e muitos anos. 


Está na hora de partir em direcção a Kosice. Lá fora, já temos o transporte à nossa espera. É tempo de rir, chorar, abraçarmo-nos umas às outras e deixar o ar ficar cheio saudades e promessas de reencontros futuros, não importam onde aconteçam. São momentos destes que nos fazem crescer mais um bocadinho. Viajar e conhecer pessoas de outras latitudes é algo que nos faz crescer mais depressa como pessoas. Estamos a acabar esta etapa, conscientes que só agora o nosso percurso europeu pode estar a começar.
As imagens que se seguem falam por sim, em relação ao que foi deixarmos Secovce.

 Luís Sousa
 





Diário Comenius (dia 6) – “Oficinas, computadores, carnaval fora de horas e uma inesquecível gelatina de porco”








Sexta-feira, 18 de Fevereiro

Agora que já começámos a ambientar-nos ao labirinto de corredores e portas que dão para escadas e outras que afinal não dão para ir para onde queremos é que tudo caminha para o fim. Durante os primeiros dias, sempre que parecia que tinhamos o percurso delineado dentro do edifício da escola havia sempre algo que nos fazia momentaneamente perder a noção da direcção que pretendiamos. A única desculpa é mesmo o facto de este edíficio ser realmente grande. Para além de algumas salas e ainda estruturas de apoio alberga uma série de divisões que têm como função alojar os alunos que aqui estudam e pernoitam em regime de internato. São estes alojamentos que por estes dias têm servido de lar aos professores que participam neste encontro.
Espaço não falta a estas amplas oficinas
A nossa visita começa pela zona onde funcionam os cursos ligados à actividade industrial. São vários os cursos ligados à metalomecânica (como é o caso da soldadura ou serralharia). É deveras impressionante, o quão bem equipado estão estas oficinas. Passa-nos pelo pensamento, que muitas empresas no nosso país, não terão maquinaria tão diversa. Outro motivo que causa espanto, é o tamanho das instalações, todas muito amplas. Ao contrário do que poderíamos pensar, e do que o espaço poderia albergar, as classes não são muito numerosas. A explicação que nos dá a vice-presidente Maria é bastante plausível. São cursos industriais, onde os alunos aprendem a manusear máquinas, muitas vezes complexas, que com uso indevido rapidamente se tornam perigosas. Deste modo, com um número de alunos reduzido, o professor consegue dar atenção a todos e o processo de ensino faz-se de um modo mais eficiente.

Assistimos a algumas demonstrações sobre o funcionamento das máquinas
Saimos deste ambiente industrial e quase sem darmos por isso, estamos num corredor inundado por música festiva. Perante o ar de interrogação dos visitantes, dizem-nos que os alunos mais jovens estão a celebrar o Carnaval. Isto deixa-nos ainda mais confusos, porque supostamente o Carnaval este ano definitivamente não é nesta semana. Por fim, lá nos explicam que é tradição escolher um dia para se celebrar por aqui o Carnaval, sem que obrigatoriamente tenha que ser época do dito. Parece algo importado e que não sabendo muito bem onde encaixar, acabou por ficar com o espírito “O Carnaval é quando um eslovaco quiser!”. O certo é que a juventude está bem animada e a divertir-se à grande. Entramos na sala no momento em que está a acontecer o jogo da cadeira. O entusiasmo é geral e perante o ritmo imposto pela banda de serviço, os participantes vão sendo eliminados um a um. 

Alunos a trabalharem nos tornos
O Director António Saloio enquanto observava um aluno a soldar
Abandonamos a festa e seguimos para a área onde funcionam os cursos ligados às novas tecnologias. Aqui o cenário é parecido à realidade portuguesa. Vamos cumprimentando todos os alunos que aparecem e tentando ao máximo comunicar com eles. Alguns alunos tentam exprimir-se com algumas frases em inglês, mas a ainda tenra idade não dá azo a grandes aventuras linguísticas. O mesmo já não se passa com os mais velhos, que já revelam um outro domínio da língua inglesa e por isso conseguem exprimir-se melhor. Voltamos a reencontrar o simpático professor de informática que nos primeiros dias nos ambientou e ajudou a podermos usufruir de uma sala de computadores para trabalharmos. Explica-nos como funcionam estes cursos ligados à informática e mostra-nos, visivelmente orgulhoso, alguns trabalhos de programação informática realizados pelos alunos que nos pareceram bem complexos.

A surpresa ao ver uma sala repleta a celebrar o Carnaval fora de época
Pouco depois, estamos no local onde foram preparadas uma boa parte da comida que foi servida na escola nestes dias. Falamos da cozinha onde funciona o curso profissional de cozinha. Aqui os jovens aprendem todos os segredos ligados à arte da confecção culinária. A avaliar pela quantidade de coisas saborosas que tivemos o privilégio de provar estão todos aprovados. Não tendo sido um prato consensual, não há como não relembrar a extraordinária apresentação e (pelo menos para alguns de nós) o sabor da gelatina de porco. Compreendendo que muitos dos que lerem este texto possam franzir o sobrolho perante esta iguaria, deixem-nos acrescentar que com um pouco de cebola às rodelas e temperado com vinagre foi algo opíparo!
E já que falamos em comida, já vamos com mais de duas horas de visita à escola e sem darmos por isso estamos na hora de almoço. Já nos resta pouco tempo em Secovce.

 Luís Sousa

O jogo da cadeira a decorrer com grande animação
O simpático professor de informática explica como funcionam os cursos informáticos
A gelatina de porco revelou-se um autêntico pitéu

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Viagem Comenuis à Turquia e uma mala cheia de ofertas!


 




Esta primeira semana de Maio foi muito atarefada para todos os alunos e professores envolvidos no Projecto Comenius. No próximo domingo, dia oito, a nossa escola envia para a Turquia mais uma delegação para participar nos trabalhos do Projecto.


Os alunos da Unidade de Apoio a Alunos com Multideficiência e os alunos com Currículo Específico Individual, durante as aulas de Trabalhos Manuais e Autonomia Pessoal, prepararam um conjunto de ofertas em tecido à semelhança do que têm realizado durante o ano. Cada aluno fez um fuxico com a ajuda da professora e das auxiliares da sala. Coube a estes alunos realizarem a fase de costura do tecido, que aprenderam este ano, enquanto os adultos ajudaram na  finalização.
 

Também os alunos do 8ºA vieram esta semana à Unidade de Apoio a Alunos com Multideficiência e transformaram simples cadernos de capa preta em bonitos livros de receitas para oferecer aos nossos parceiros europeus. Este momento proporcionou um bom trabalho de pares e contou com a colaboração da professora Ana Margarida, do professor Venâncio e da intérprete de LGP, Cátia Franco.


Muitos outros têm contribuído com ofertas. A professora Ana Clemente e as turmas de oitavo ano fizeram saquinhos de cheiro, o professor Martinho e a turma do 8º B fizeram compotas, a professora Susana Silva e a turma do 5ºB confeccionaram bolachas de alfazema e o professor António Pedro e a turma do 5º C fizeram velas de cheiro de alfazema. Estas ofertas são mais do que isso, são o cumprimento de um dos grandes objectivos do Projecto que é, a forma como cada escola de cada país explora as potencialidades das ervas aromáticas e medicinais que lhe foram atribuídas. No nosso caso foi a alfazema, o hipericão, a lúcia-lima, alecrim e os orégãos.

A delegação que o Agrupamento de Escolas de Santa Catarina enviará à Turquia levará uma mala cheia de ofertas realizadas pelos nossos alunos para que os professores e alunos de outras escolas parceiras no Projecto, vejam como somos habilidosos e generosos. A sua mala irá cheia de ofertas feitas pelos nossos alunos mas acima de tudo a sua mala irá cheia de boa vontade, partilha, trabalho inclusivo e orgulho naquilo que conseguimos realizar.
Boa viagem!
Teresa Miguel

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Comenius Week (3 de Maio) Celebramos a Turquia!






  Ao segundo dia da Comenius Week, a nossa atenção foi totalmente centrada na Turquia. No átrio da escola foram exibidos alguns pequenos filmes com o propósito de transmitir à nossa comunidade escolar a essência desse grande país. A grande cidade que é Istambul, com os seus doze milhões de habitantes, como não poderia deixar de ser recolheu a maior parte do destaque. Contudo, esta fascinante cidade, que em 2010, foi Capital Europeia da Cultura, é apenas uma pequena parte de tudo o que a Turquia tem para oferecer.
A partir da semana que vem, quando a comitiva da escola se deslocar à Turquia, esperamos poder continuar a escrever os Diários Comenius, com todos os pormenores e detalhes do que iremos vivenciar. Após a aterragem em Istambul, não faltarão com toda a certeza, motivos de interesse para desenvolver os nossos escritos.
Na área gastronómica, o dia de hoje serviu para realizarmos uma experiência diferente. Aventurámo-nos na gastronomia turca. Tida como uma das melhores do Mundo, a gastronomia turca é um mundo infinito. Desta feita, a escolha recaíu num “Incirli Havuçlu Kek”, o que em português se poderá traduzir por Bolo de Cenoura e Figos Secos.
Esta receita acabou por se revelar bastante fácil de elaborar. A confecção ganha um certo exotismo, se acompanhada da audição de algum tipo de sonoridade turca. A nossa escolha recaiu num músico turco de excelência. Falamos de Burhan Öçal (http://www.burhanocal.com/). Os mais novos poderão tentar confeccioná-lo com música turca mais pop. Entre os vários músicos turcos extremanente populares, Tarkan (http://www.tarkan.com/klip.html) será talvez um dos mais conhecidos. Qualquer hipótese é boa para ouvir música de outras latitudes, que não a nossa. Se a opção recair na literatura, os cinquenta minutos de espera enquanto o bolo está no forno, é um óptimo motivo para uma aventura na obra de Orhan Pamuk, escritor turco, já galardoado com o Prémio Nobel e detentor de uma obra riquíssima, dedicada sobretudo, à sua Istambul natal.
O resultado da experiência culinária otomana foi então distribuído pelos nossos alunos, juntamente com a receita, para que possam experimentar em casa. Foi ainda lançado o desafio para que tentem confeccionar um bolo e o tragam para compartilhar com os colegas! Após tão bons resultados, não resistimos a aqui deixar a receitas para que toda a comunidade escolar possa também usufruir desta experiência.
Aqui fica então a receita, acompanhada de uma fotografia ilustrativa do resultado!
Bolo de Cenoura com Figos Secos
“Incirli Havuçlu Kek”
Ingredientes:
3 Ovos
½ copo de óleo de girassol
1 copo de açúcar
4 cenouras
1 colher de sopa de canela
8 figos secos
2 copos de farinha de trigo
1 colher de sopa de fermento

Mistura os ovos com o açúcar. Junta o óleo e mistura. Descasca as cenouras e rala-as na picadora. Corta os figos em pedaços pequenos. Adiciona as cenouras raladas, os figos cortados, a canela e mistura. Finalmente, junta o fermento e a farinha e mistura novamente. Coloca a massa numa forma untada e polvilhada e cozinha em forno pré-aquecido a 180º durante cerca de 50 minutos.


Bom apetite!

Luís Sousa

Diário Comenius (dia 6) - “Começar as despedidas”









Sexta-feira, 18 de Fevereiro

Altura de relaxar um pouco com alguns jogos
Hoje o dia amanheceu frio. O vento, ainda que ligeiro, não convida muito a actividades ao livre. Nada de grave, já que consegue-se circular por toda a escola sem que seja preciso estar muito tempo na rua. O grupo que se reuniu no início desta semana, começou esta madrugada a desfazer-se. Os nossos colegas turcos já partiram hoje bem cedo, rumo a Viena (Áustria). Espera-lhes uma longa viagem até conseguirem chegar a Samsun, na Turquia. Talvez uns dois dias. Antes, ainda terão que passar por Istambul (Turquia). Os colegas ingleses também já partiram e em breve seguirão caminho parte dos colegas alemães. Uma das escolas alemãs fará a viagem de regresso utilizando como único meio de transporte o comboio. Primeiro, seguirão daqui até à capital eslovaca, Bratislava. Aí farão uma pequena paragem para depois voltarem a apanhar outro comboio que os levará até Dresden (Alemanha). Aos poucos, ficamos nós, os colegas polacos e os anfitriões eslovacos. A nós espera-nos a viagem mais longa de todas. Logo à tarde chegará a nossa vez de partir. Até ao comboio das 18.30 em Kosice, rumo a Budapeste, ainda há muita coisa para fazer. Felizmente antes de fazermos as malas (haverá algo mais enfadonho numa viagem do que fazer malas?), espera-nos um pequeno-almoço reconfortante, ideal para iniciar mais um dia longo que só acabará por volta da meia-noite, já na capital húngara.
Mesmo já não estando todos os que participaram neste encontro, ainda há actividades que podemos desenvolver. Os membros mais novos da nossa comitiva irão aproveitar para descansar um pouco junto dos seus amigos. Conversar, continuar a praticar a língua inglesa, enquanto se ocupam com alguns jogos. A semana tem sido muito intensa e é preciso recuperar forças. Os adultos irão percorrer a escola, visitar mais algumas salas, conhecer e conversar com mais alguns professores e sobretudo alunos, que demonstram sempre muita curiosidade em tudo o que está relacionado connosco. É esse o espírito dos intercâmbios europeus e é algo que fazemos com imenso prazer.
Um pouco antes de começarmos a visita à escola profissional
Ao longo desta manhã iremos visitar a parte da escola onde funcionam os diferentes cursos profissionais. Junta-se a nós um aluno eslovaco que conhecemos bem. O Maros, esteve no encontro que se realizou no nosso país. Munido da sua câmara de filmar vai ajudar na visita guiada, enquanto documenta em video tudo o que iremos fazer. 

Luís Sousa

terça-feira, 3 de maio de 2011

Diário Comenius (dia 5) - “Bardejov”








Quinta-feira, 17 de Fevereiro


As muralhas da cidade Bardejov escondem uma imensa riqueza histórica.
Enquanto foi apenas um nome escrito nas placas de sinalização, foi sendo alvo de piadas que a ligavam foneticamente à nossa muito conhecida Badajoz, cidade espanhola, mais ou menos mítica para todos os portugueses apreciadores de caramelos (nas suas variantes com e sem pinhões). Agora, vista da estrada, mais concretamente da passadeira onde esperamos pacientemente que o sinal mude de vermelho para verde, o centro histórico de Bardejov, surge-nos algo imponente e pronto a mostrar-nos a injustiça das graças feitas à conta da sua identificação. As muralhas que rodeiam o antigo burgo ajudam à transmissão dessa ideia. Se a parte moderna da cidade não parece ter nenhum atractivo especial, o mesmo não se passa com a parte da cidade antiga. São esses atractivos que fizeram com que a UNESCO tivesse considerado o centro histórico como Património Histórico da Humanidade.

Os sinos foram cenário de várias fotografias em grupo.

Atravessamos finalmente a estrada que nos separa do caminho que levará à entrada do antigo burgo. Facilmente se nota que esta era uma zona mais elevada, em relação ao que deveriam ser os antigos campos que rodeavam a cidade, agora povoados por edifícios mais ou menos incaracterísticos. O caminho, não é íngreme em demasia e faz-se rapidamente. Em pouco tempo, passamos das ruas de acesso até à praça central. E é aqui a Bardejov se revela. Esta é uma praça muito bela, que nos faz recuar ao século XV, tal é o cuidado que foi posto na sua preservação. O casario antigo dispõe-se à volta da praça, com as suas tonalidades pastel, azul, laranja ou rosa claro, dando azo a uma agradável mistura cromática.
 
Basílica de Santo Egídio (século XV)
Pormenor da torre do relógio (basílica de Santo Egídio).






A sede representativa do poder da cidade é um dos edifícios mais emblemáticos da cidade.

As informações que vamos lendo, referem que esta foi uma cidade que enriqueceu a partir do século XIV, sobretudo graças ao comércio desenvolvido com a Polónia e com a Rússia. Fruto da riqueza existente, muitos foram os edifícios que foram sendo construídos. As épocas foram passando e os estilos arquitectónicos foram-se misturando até ao cenário actual. No entanto, todo o desenvolvimento que a cidade atravessou terminou devido à Guerra dos Trinta Anos, às revoltas contra a família dos Habsburgos (que governava o Império Austríaco) e ainda devido à peste. Acabou-se o desenvolvimento comercial, mas salvou-se esta bela praça. Não deixa de ser impressionante, que nenhum dos oitenta edifícios originais se tenha perdido, e que apenas quatro casas tenham sido construídas nesta praça desde 1600.


Interior da basílica de Santo Egídio.
Alguns exemplares das casas que bordejam a praça do centro histórico de Bardejov.
Vista do topo da praça. Ao fundo, o edifício da Câmara e a basílica de Santo Egídio.
     
Um dos mistérios não resolvidos das nossas visitas, prende-se com o facto de ainda não termos percebido a razão pelo qual as grandes igrejas têm alguns dos seus sinos ao nível térreo. Parecem completamente desenquadrados, atraindo no entanto a curiosidade de todos quantos por ali passam. Todos tiram fotografias junto aos sinos, servem na perfeição para a pose fotográfica e nunca deixa de espantar pela temperatura gelada que têm, quando desprevenidamente nos encostamos a eles. A própria praça apresenta um desnível muito considerável. Neste momento, estamos na parte baixa, observamos toda a envolvência a partir da basílica que domina esta parte da praça.  À nossa frente, está o edifício daquilo que será um equivalente dos nossos paços do concelho. É o único edifício no centro da praça.
Seguidamente, entramos na basílica de Santo Egídio de Bardejov. Não é tão imponente com a sua congénere gótica de Kosice, mas revela-se também cheia de encantos. A luz não abunda, o que dá um ar ainda mais misterioso às personagens e cenas biblícas que vão passando pelo nosso olhar. Ao sairmos, decidimos tentar dar a volta à praça, de modo a tentarmos admirar ao máximo os edifícios que se revelam à nossa passagem. Há sempre uma arcada, uma passagem estreita a que não se resiste a entrar para ver onde vai dar. Finalmente, acabamos a nossa visita a esta cidade histórica eslovaca, sem dar conta que nos atrasámos um pouco e que todo o grupo espera já por nós.
  Luís Sousa

Diário Comenius (dia 5) - “Criando uma açorda eslovaca"








Quinta-feira, 17 de Fevereiro


A primeira açorda luso-eslovaca apresenta-se ao mundo.
Almoçamos na cidade de Bardejov, sem ter tido tempo de ainda explorar a cidade. Descemos directamente de Bardejov Spa para o local onde será o almoço. Uma cantina bastante grande, onde toda a gente que a ocupa parece bastante atarefada, seja em servir a refeição, seja a comê-la rapidamente para dar lugar aos próximos. E contudo, espaço é algo que não parece faltar. Procuramos uma mesa para nos instalarmos e de seguida, movimentamo-nos no sentido de achar água para acompanhar a refeição que se seguirá. É outro dos hábitos em que parece existir diferença entre os nossos países, pois experimentámos já algumas refeições sem acompanhamento líquido. Correndo o risco de desrespeitar um pouco a máxima “Em Roma, sê romano”, há sempre um de nós que encarna a posição de aguadeiro e parte com a missão de achar água para todos.
Depois de uma refeição, em que a sopa que nos foi servida, ser alvo de uma intervenção de fusão gastronómica, entre as cozinhas eslovaca e portuguesa, não temos bem a certeza que esta espécie de ensopado-açorda luso-eslovaca resista a memórias gustativas futuras. Provavelmente a única coisa que resistirá, será a fotografia que tirámos e os momentos que passámos a rir enquanto nos divertimos a tentar compor a coisa.
Português, que é português, vai sempre queixar-se e lamuriar-se sobre o pão, seja em que parte do planeta estiver. Faz parte da nossa herança genética. E tem também a ver com a lógica pura e racional, já que dificilmente haverá povos no mundo que tenham pão tão bom como nosso. Aceitamos somente a possibilidade de haver alguns (só alguns) tão bons como o nosso. Agora, melhor? Claro que o termo de comparação aqui é o pão caseiro, como por exemplo, o alentejano ou o transmontano. A memória leva-nos sempre para o forno de lenha e não para a do forno eléctrico de grande superfície que produz pão insípido em sistema de linha de montagem industrial.
Com o devido respeito pelo flagelo da hipertensão, que falta faz por aqui mais sal no pão! Se é verdade que em Portugal, poderemos exagerar no sal que consumimos através do pão, aqui na Eslováquia, o sal no pão pode ser considerado algo dentro da categoria em vias de extinção. Depois do momento de divagação voltamos a atenção para a nossa açorda, que tendo um sabor agradável resultado do uso da cebola e do tomate, não ficaria nada mal se pudesse ver acrescentado os nossos saborosos coentros.
Luís Sousa