sábado, 24 de setembro de 2011

Diário Comenius Turquia (dia 2): “De Istambul até Samsun”








Eis-nos de regresso ao aeroporto Istambul Ataturk. Desta feita, iremos para a zona de voos domésticos ao invés da zona de embarques internacionais. Chegámos com a devida antecedência, o que nos dá uns momentos para observar a zona de entrada do aeroporto. O movimento é constante, mas fluido. Quem chega é recebido por dezenas de bandeiras turcas a esvoaçar, amarradas aos respetivos postes. Também aqui é notório o orgulho que os turcos têm à sua bandeira.
Foi com alguma preocupação que tratámos de realizar o check in. Isto, porque alguém se lembrou que indo nós apanhar um voo doméstico, o limite de peso de bagagem por passageiro poderia não ser os vinte quilogramas permitido nos percursos internacionais. E não é que não era mesmo? Somente quinze quilos por passageiro! Os minutos seguintes passaram-se já a fazer contas à vida (ou melhor ao dinheiro) que seria necessário para fazer face ao peso excedente. Finalmente, o primeiro de nós é chamado ao balcão. Quando o segundo do grupo recebeu sinal para avançar e iniciar o seu o check in apercebemo-nos que os funcionários iriam usar como referência o somatório de todas as bagagens. Começou aí o penoso período de pesagem, mala a mala até ao peso total. Quando a última mala se juntou às seis que estavam na balança o resultado era ainda meio imprevisível. Podia resultar em qualquer cenário. Eis quando a balança anuncia o resultado final. Acompanhado do sorriso cúmplice de toda a gente que estava a receber bilhetes atrás do balcão, as nossas malas ultrapassaram com sucesso o desafio…embora apenas por um pouco menos de uma dezena de quilogramas. 

Quase a iniciar o check in para o voo com destino a Samsun.
Libertos do peso das malas, ficámos com um par de horas para deambular pelo aeroporto. Entre as atividades (mais ou menos inúteis) a que uma pessoa se pode dedicar no aeroporto enquanto espera pela hora de embarque, dedicámo-nos às seguintes:
  1. Olhar para os passageiros em trânsito e imaginar de onde vêm e para onde vão, construir-lhes uma personagem e viajar mentalmente para os seus destinos;
  2. Deliciarmo-nos a observar a sinalética em turco e aproveitar a oportunidade para aprender mais algum vocabulário turco. É incrível como este passatempo ganha novos apreciadores viagem após viagem;
  3. Olhar para a pista do aeroporto, tentando perceber o fascínio do planespotting (sim, existe uma atividade com inúmeros fãs, que consiste em observar aterragens e descolagens de aviões e subsequentes manobras em pista).
A Onur Air foi a companhia aérea em que viajámos de Istambul para Samsum.
Finalmente, e após o anúncio de um pequeno atraso na descolagem, chega a nossa vez de partir. A entrada no avião faz-se de um modo, que nos pareceu pouco habitual e até meio confusa. A fila de entrada não parece muito certinha e a sensação que nos transmitiu é que havia ali muita gente com pressa de regressar a casa. Saudades, talvez. O certo, é que com toda a calma do Mundo, sentamo-nos nos nossos lugares e num instante estávamos no ar.

A fazer passar o tempo. Cada um entretém-se como pode.
Já ninguém resiste ao sumo de cereja turco.

O dia já caminha para o seu ocaso, o que torna a descolagem de Istambul, mais um momento para ficar na memória. Lá em baixo, a cidade vai ficando para trás, envolta em todos os tons possíveis de amarelos e acobreados, enquanto o céu nos apresenta uma paleta muito sublime de azul e tonalidades de laranjas. O avião dirige-se rapidamente para o mar Negro. Conseguimos vislumbrar perfeitamente, todo o recorte da costa. Conforme, vamos ganhando altitude, vemos os petroleiros e outros navios de carga que sulcam o mar Negro, irem diminuindo de tamanho até ficarem quase minúsculos. Dentro do nosso grupo, é tempo para alguns aproveitarem para descansar uns momentos, enquanto outros conversam ou tentam trabalhar um pouco. A viagem será rápida. Uma hora e um quarto previsto para o voo.
Já caiu a noite quando aterramos em Samsun. O cansaço já vai fazendo algum peso e alguns de nós começam a revelar alguma fadiga. Já estamos de pé desde as seis da manhã e com muitos quilómetros andados. Este aeroporto não tem grandes dimensões e mal saímos do avião, damos por nós dentro da sala onde daqui a pouco certamente aparecerão as nossas malas. Tal como alguém já tinha reparado durante a viagem, são poucos os passageiros com feições europeias. A bem dizer, parecia não haver mesmo mais ninguém. 
Até um simples momento em que esperamos bagagem pode revelar-se curioso. A nossa espera também teve as suas curiosidades. Ao iniciar o movimento, a passadeira rolante que traria as bagagens de todos os passageiros, rapidamente começou a revelar objetos que nos pareceram mais interessantes dos que as coloridas malas que desfilavam perante o nosso olhar. O espanto recaiu em três garrafões enormes, talvez com uns vinte ou trinta litros de capacidade que rodopiaram com algum estrondo até descansarem na passadeira. Trazer água engarrafada dentro de um avião? Durante algum tempo a nossa atenção desviou-se para uma saca enorme que também fez a sua aterragem no tapete rolante. Infelizmente para o proprietário da mesma, rompeu-se numa das tropelias a que foi sujeita durante a viagem.  Pequenas quantidades de tâmaras iam caindo do saco esfarelado. Rapidamente se percebeu quem era o proprietário do saco, já que um senhor ao nosso lado não conseguiu esconder o desespero. Num ápice, juntamente com os filhos quase saltaram para o tapete rolante e começaram a recolhê-las. Tentámos de algum modo ajudar, mas ao apanharmos algumas, o dono dos frutos secos quase que nos arrancou das mãos os que tínhamos conseguido apanhar para lhe dar.

Luís Sousa
O planespotting é já uma das nossas distrações de aeroporto. É vê-los partir e chegar.
Já com a nossa bagagem recolhida conseguimos vislumbrar à saída da gare algumas pessoas que serão os nossos colegas turcos, isto porque há um professor que já conhecemos da viagem à Eslováquia. Todos nos acenam sorridentes a dar a boas-vindas. Realizados os cumprimentos e apresentações da praxe combinam-se os meios de transportes para o centro da cidade, que dista a pouco mais de 20 quilómetros daqui. A noite já vai avançada quando finalmente deixámos o aeroporto rumo ao descanso merecido. Não acabámos o dia (ou melhor a noite) sem perceber o porquê dos enormes garrafões de água. Pertenciam aos peregrinos que vinham de Meca, a cidade mais sagrada do Islão e que se localiza na Arábia Saudita. A água tinha sido recolhida nas fontes de Meca e provavelmente tinha como destino a oferta a familiares e amigos

O planespotting é já uma das nossas distrações de aeroporto. É vê-los partir e chegar.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Diário Comenius Turquia (dia 2): “Um crime no Expresso do Oriente”











É com grande entusiasmo que damos conta de estar a transitar na lateral de umas das estações de comboio mais míticas da história da literatura policial. Falamos, claro está, da Estação de Istambul Sirkeci. Foi aqui que Hercule Poirot, o famoso detetive belga criado por Agatha Christie, talvez a mais célebre escritora de enredos policiais de sempre, embarcou no Expresso do Oriente, numa viagem marcada por um misterioso assassinato. O enredo da obra apresenta um novelo complicado de desvendar para as autoridades que se deparam com uma grande quantidade de suspeitos. Todos eles tinham algum tipo de ligação à vítima e à medida que vamos avançando na leitura da obra verificamos que muitos deles podem ter um móbil para cometer o crime. Sem o contributo do fleumático e perspicaz Poirot, com a certeza que o crime ficaria por desvendar. 

Vista lateral da Estação de comboios de Istambul Sirkeci

Retornando ao edifício propriamente dito, é com algum pesar que não conseguimos admirar a parte frontal do mesmo. A sua construção foi decidida após a Guerra da Crimeia quando as autoridades do Império Otomano se aperceberam da necessidade de uma linha férrea que ligasse Constantinopla (atual Istambul) à Europa. A Guerra da Crimeia foi um conflito que se desenrolou entre 1853 e 1856, na Península da Crimeia (daí o nome do conflito), junto ao mar Negro, no sul da atual Ucrânia. De um lado, o Império Russo, do outro uma coligação de Países e Impérios, integrada pelo Reino Unido, França, o Piemonte-Sardenha, juntos naquilo que ficou conhecido por Aliança Anglo-Franco-Sarda. Esta coligação contou ainda com a participação do Império Turco e com o apoio do Império Austríaco sendo que o motivo da sua formação esteve ligado à reação destes países contra as pretensões expansionistas russas.

Umas das locomotivas que serviu esta famosa linha férrea

Após o fim do conflito tornou-se claro para o governo otomano a necessidade de realizar uma aproximação estratégica aos países da Europa Ocidental. A linha onde viria a circular o Expresso do Oriente servia estes propósitos. Os 3.094 quilómetros entre Paris e Constantinopla eram efetuados numa viagem que se estendia por umas longas oitenta horas. A primeira viagem de Paris a Constantinopla aconteceu a 1 de Junho de 1889. Esta linha férrea tornou-se uma das mais conhecidas de todo o Mundo, pelo que vale bem a pena investigar um pouco mais da sua História em alguns dos muitos livros que foram escritos sobre ela.
O movimento em redor da estação será hoje muito maior do que em tempos passados. As carruagens foram substituídas por um tráfego constante. Este intenso movimento estende-se também ao mar. Do autocarro em que seguimos podemos vislumbrar toda a atividade marítima. Do lado asiático, as margens estão pejadas de guindastes que servem o transporte de mercadorias. Também aí, estão atracados vários navios de cruzeiro que trazem a esta espetacular cidade turistas de todos os pontos do globo.
O melhor é mesmo ler (ou reler) esta obra publicada em 1934, disponível na nossa biblioteca e descobrir uma autora que ao longo de várias gerações tem fascinado milhões de leitores. Agatha Christie é sem dúvida uma escritora imortal. Crime mesmo é não termos tido oportunidade de dedicarmos algum tempo à estação de Sirkeci. 

Luís Sousa
O tráfego de navios de cruzeiros é muito intenso no Bósforo

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Mercado de "SANTANINHA"


Integrada nas actividades de encerramento do ano Lectivo, a Biblioteca Escolar da EB de Santa Catarina realizou, à semelhança de anos anteriores, mais uma SANTANINHA! A SANTANINHA é um mercado onde tudo se pode trocar e/ou vender desde roupas a brinquedos usados, jogos, DVDs e CDS, fruta e bolos, pulseiras, livros e marcadores de livros, produtos hortícolas e animais, antiguidades, coisas úteis e coisas inúteis. Esta iniciativa para além de ser um momento de convívio entre alunos, professores, funcionários, encarregados de educação e comunidade local pretende sensibilizar os seus participantes para a importância da reutilização, prolongando os ciclos de vida dos objectos e minimizando os desperdícios e o consumo.
Destacamos a pronta colaboração dos pais/encarregados de educação, dos alunos, dos docentes e dos funcionários na cedência de produtos, objectos de diferente natureza, na confecção da doçaria e na ajuda prestada para a sua realização. O dinheiro apurado nas vendas reverteu mais uma vez para a biblioteca escolar.
A todos os que participaram e visitaram a "SANTANINHA" contribuindo para o seu sucesso, o nosso muito obrigada!


Visita dos "MELHORES LEITORES 2010/2011!"


Com o objectivo de premiar os melhores leitores de todo o Agrupamento e destacar os alunos pelo seu empenho nas actividades da biblioteca e pelo prazer de ler, as bibliotecas escolares promoveram, pelo quarto ano consecutivo, mais uma fantástica visita! Desta vez, os locais eleitos foram, o parque temático/sensorial da Pia do Urso em S. Mamede, a biblioteca Municipal da Batalha e a feira do Livro e do jogo na vila da  Batalha.
Podermos oferecer este prémio a quem se diferencia pelo gosto dos livros é para nós muito gratificante.
Todos os alunos premiados receberam ainda o diploma de Melhor Leitor e um CD com as fotografias tiradas durante a visita.
Um agradecimento  à Junta de freguesia de Santa Catarina pela disponibilização da verba para o gasóleo. Só deste modo tem sido possível a realização da visita sem custos para os alunos. Um bem-haja!

Parque temático/sensorial da Pia do Urso




 
Biblioteca Municipal da Batalha







Feira do Livro e do Jogo na vila da Batalha
Grupo dos melhores leitores do Agrupamento

terça-feira, 2 de agosto de 2011

EB de Alvorninha… uma eco-escola


Desde o ano lectivo 2010-2011, a EB de Alvorninha integra o Eco-Escolas, um Programa Internacional que pretende encorajar acções e reconhecer o trabalho de qualidade desenvolvido pela escola, no âmbito da Educação Ambiental.
Um dos primeiros passos foi a realização de uma auditoria ambiental que permitiu fazer o diagnóstico da situação da escola no que respeita às questões ambientais. Depois, nas diversas áreas curriculares, foram desenvolvidos trabalhos sob a temática do ambiente, nomeadamente “água, energia, resíduos, espaços exteriores, floresta e biodiversidade”, sensibilizando a comunidade escolar para a necessidade de preservação do ambiente. Participámos também em alguns concursos lançados pelo Programa Eco-Escolas e, finalmente, apresentámos a candidatura ao galardão 2011.
Foi com muita satisfação que recebemos a notícia de que a nossa candidatura foi aprovada, pelo que a escola será galardoada com a Bandeira Verde Eco-Escolas 2011! Em Setembro, içaremos a bandeira o que, para além de nos alegrar, nos responsabilizará no seguimento da nossa acção em termos de aumentar a qualidade ambiental da nossa escola! Até porque… ainda há muito para fazermos!


ARRAIAL DOS SANTOS POPULARES


Se quiséssemos uma evidência da estreita relação entre o Núcleo Pedagógico de Alvorninha (EB de Alvorninha e JI da Ramalhosa), encarregados de educação, Associação de Desenvolvimento Social da Freguesia de Alvorninha, Junta de Freguesia e comunidade em geral, teríamos certamente dificuldade em escolher de entre as inúmeras actividades desenvolvidas ao longo do ano lectivo! No entanto, o Arraial dos Santos Populares, realizado a 17 de Junho, foi sem dúvida o culminar de todo esse trabalho de parceria.

 

Ao longo do mês, nas diversas actividades curriculares, alunos e docentes realizaram trabalho em torno da temática dos “santos populares”, de modo a que o arraial surgisse de forma contextualizada no desenvolvimento da actividade lectiva, promovendo conhecimento, o que, afinal, se traduz num dos objectivos fundamentais da Escola. Assim, realizaram-se pesquisas, escreveram-se textos, construíram-se adereços, canções, ensaiaram-se as marchas, etc.



Chegado o grande dia, os encarregados de educação e elementos da Associação de Desenvolvimento Social da Freguesia de Alvorninha colaboraram na montagem do arraial e na dinamização das diversas barracas (bebidas, salgados, doces, filhós e café d’avó, bifanas, manjericos, quermesse, pinturas faciais e balões). Ao som das marchas populares, desfilaram os alunos e os idosos do Centro de Dia da ADSFA, seguindo-se depois a homenagem aos alunos que terminaram o 1º Ciclo, com a entrega de simbólicos diplomas. Foi, depois, aberto o arraial… com muita animação, muita música… e onde não faltou “o pezinho de dança”!



Na biblioteca da Escola, os alunos apresentaram a peça “Os ovos misteriosos”e foram entregues os prémios aos melhores leitores e colaboradores da biblioteca. A par, esteve patente uma exposição de trabalhos realizados pela comunidade escolar e a apresentação do registo fotográfico do ano lectivo, o que mereceu inúmeros elogios por parte dos visitantes.


A festa foi do agrado de todos e a verba recolhida servirá para a aquisição de equipamento para o JI da Ramalhosa e para a EB de Alvorninha. Para esta última, a intenção é a compra de um toldo, de modo a criar um ponto de sombra no pátio da escola. Ainda não conseguimos o montante necessário e, por isso, mais iniciativas terão de se desenvolver, certos de que conseguiremos… porque é sempre o que acontece, quando, em Alvorninha, a comunidade educativa dá as mãos! 

Diário Comenius Turquia (dia 2): “A mesquita de Rüstempaşa”







Estreitos são os caminhos que nos levam até à mesquita de Rüstempaşa. Caminhamos por vielas acanhadas. Em algumas delas quase poderíamos tocar nas duas paredes que ladeiam o percurso se por acaso tentássemos esticar ao máximo os nossos braços. De modo algum, o facto de serem estreitas e algo escondidas do sol faz com que estejam vazias. Aqui também existe vida e por isso também se vê muita gente a conversar e a tentar fazer alguns negócios de circunstância. Existem também algumas lojas, embora em menor número. Têm um ar mais familiar e menos organizado do que as localizadas nas grandes ruas principais. Ainda assim, o movimento é menor, assim como os preços dos produtos que vendem. Isto é algo que já aprendemos, as ruas paralelas e menos dados ao turismo de massa têm os preços substancialmente mais baratos. 


A Mesquita de Rüstempaşa é visível a partir da praça central junto ao Bósforo.

Ao fim de uma ruela mais comprida viramos à esquerda. De súbito, temos mais espaço, já que o caminho alarga um pouco. A placa afixada na parte superior da parede deixa ler “Rüstempaşa Camii” e indica ser este o caminho correcto. Encontram-se por aqui mais alguns grupos de pessoas a conversar. Ao observá-los ficamos com a sensação que a média de idades é algo elevada. Focamos a nossa atenção em dois senhores, já com alguma idade, que parecem entreter-se com algo que não percebemos muito bem o que será. Um deles segura um saco preto, de onde o segundo retira aquilo que nos parece ser bolas brancas com números impressos. Posteriormente, comparam os números das bolas com uns papelinhos. Mais tarde, questionaremos alguns amigos turcos sobre o que nos pareceu ser uma estranha actividade e tudo se desvendará num ápice. Afinal, talvez embalados pela ambiência exótico-misteriosa do local, não assistimos a mais do que um jogo típico que os mais idosos fazem como passatempo. E nós a imaginarmos explicações dignas de um filme.


A placa que indica “Rüstempaşa Camii” mostra que estamos no caminho correcto.

Passamos uma arcada e iniciamos a subida de uma escadaria interior. Não estamos em nenhum edifício. É apenas um prolongamento do nosso percurso, uma espécie de atalho que nos levará à mesquita. A meio da subida, reparamos num gradeamento que deixa antever parcialmente a viela onde estávamos há minutos. Mais uns degraus e chegamos finalmente à mesquita. E que pérolas esta pequena mesquita se revelou.


O percurso para a mesquita faz-se por vielas e arcadas que nos surpreendem a todo o momento

A mesquita deve a sua designação a Rüstem Paşa, um homem que foi Grão Vizir (um dos mais altos cargos do império Otomano), talvez por ter sido casado com uma das duas filhas do sultão Suleimão, o Magnífico. Foi construída entre os anos 1561 e 1563 e, apesar de não ser propriamente uma mesquita imperial, algo que se nota imediatamente devido ao seu tamanho. Muito interessante é também o local escolhido para a sua construção. Estamos num terraço altaneiro e daqui se vislumbra todo o complexo de lojas que a rodeia. Pela informação disponível tomamos conhecimento que esse foi uma das considerações aquando da construção da mesquita. Os alugueres das lojas aos comerciantes em redor deveriam financiar a manutenção de todo o complexo da mesquita.   


Pormenor da fachada exterior da mesquita de Rüstempaşa.

À entrada está um senhor que nos aponta o local onde poderemos deixar o nosso calçado em segurança. Também as visitantes do sexo feminino cobrem os cabelos com um lenço, tal como costume na tradição islâmica. Lá dentro, não há como ficarmos maravilhados com aquilo que está à nossa vista. Toda a mesquita é coberta por azulejos que deixam observar um trabalho fantástico baseado em motivos geométricos e em diferentes temas florais. Do tecto pende uma estrutura que tem por função iluminar o recinto e que também contribuí para o ambiente fantástico que aqui se vivencia. Tal como é costume nas mesquitas, o silêncio é quem domina por aqui. Envolvidos pela calma e pelo sossego deixamo-nos ficar a observar os crentes que fazem as suas orações e a usufruir do fresco que se sente aqui dentro.  
Luís Sousa
 
  
Os elementos femininos do nosso grupo trajados a rigor para entrarem na mesquita.


O interior da mesquita é simplesmente fantástico e repleto de pormenores de grande beleza.

Diário Comenius Turquia (dia 2): “À volta da Mesquita Nova e a experiência sensorial das especiarias”








Já reconfortados por mais uma deliciosa refeição fazemo-nos novamente à rua. Entre nós, já não há grandes dúvidas que é onde nos sentimos melhor, porque de facto, é na rua que nos tornamos parte desta cidade. Agora o nosso destino é à área do Mercado das Especiarias, mais um dos bazares de Istambul e uma das grandes atracções visuais e mais aromáticas da cidade. Para isso, ainda teremos que atravessar uma zona que tem como nome Eminönü. Continuamos imersos na multidão que permanentemente enche as ruas, atravessamos passadeiras num misto de precaução e aventura, porque como já percebemos, aqui a cor verde do semáforo para peões tem um significado algo dúbio. No fim, tudo resulta bem. Acena-se para os condutores enquanto eles nos fazem o mesmo, escutam-se buzinadelas (nunca com sentido de reclamação, antes de alerta) e anda-se aos esses, a maioria das vezes entre os carros que ficam parados no meio das passadeiras. É um caos organizado!

A Mesquita Nova é um belo exemplar de arquitectura religiosa otomana.
Conforme nos aproximamos da Mesquita Nova volta a aumentar o comércio de rua. Esta Mesquita Nova, de nova não tem nada. Como quase tudo por aqui, tem uma (várias?) história fascinante por detrás. Começou a ser construída por volta de 1597 a mando de Safiye Valide Sultan, esposa de Murad III e mãe do futuro sultão Mehmed III. Ficamos a saber que o nome “valide sultan” era o título dado à mãe do sultão, algo parecido com Rainha-mãe. Era uma designação importante e muitas destas mulheres conseguiram de facto ter influência efectiva na governação do império Otomano. O mais incrível é que esta mulher era de ascendência veneziana. Segundo parece, nasceu com o nome de Sofia Baffo, filha do governador de Corfu. Ainda criança foi capturada por corsários que viram nela a possibilidade de render um bom dinheiro. Acabou a ser oferecida como presente para o harém otomano onde recebeu o nome Safiye que significa a “A Pura”, o que não deixa foneticamente ser parecido com o seu verdadeiro nome, Sofia. 

Uma das entradas laterais da Mesquita Nova.
Antigamente, esta era uma zona com uma forte presença judaica. Como tinha uma grande intensidade comercial, acabou por ser extremamente cobiçada por comerciantes locais que não viam com bons olhos a presença tão influente de alguns estrangeiros. O resultado foi uma luta pela influência nesta zona. Os judeus deixaram de ter por aqui uma presença maioritária sendo muitos deles substituídos por locais.

Os produtos expostos enchem-nos os olhos de cor.
Percebemos que estamos perto do Mercado das Especiarias, também conhecido por Mercado Egípcio, quando o nosso olfacto começa a ficar inebriado pelos aromas que circulam pelo ar. No exterior das lojas começam a aparecer expostas grandes quantidades de especiarias e outros produtos que todos juntos formam uma paleta imensa de cores. O deslumbramento atinge-nos e começamos a parar irremediavelmente em todos os estabelecimentos. Habituados ao espanto dos visitantes, os comerciantes olham-nos divertidos quando nos vêem com a cabeça quase enfiada dentro dos sacos. Entabulam conversa e tentam fazer negócio oferecendo os seus préstimos para nos ajudarem a fazer aquisições. Desculpamo-nos com o facto de não podermos comprar produtos devido à falta de espaço nas malas. E como apetecia comprar um bocadinho de tudo!

Especiarias, cubos de sabão perfumados e folhas de videira são alguns dos produtos que apetece comprar.
Já na praça diante do Bósforo, com a ponte Galata a dominar a paisagem o calor aperta e a claridade obriga-nos a semicerrar os olhos. A campanha eleitoral para as eleições legislativas turcas está perto de acontecer. A música que brota das várias colunas de som acompanha as propostas dos vários partidos que lutam pela melhor votação possível. A leve brisa que chega do mar agita não só a enorme quantidade de bandeiras turcas, mas também a propaganda eleitoral. No meio disto, somos interpelados por um simpático casal de portugueses que repararam em nós e metem conversa. Perguntam-nos o que andamos por ali a fazer e acham piada que alunos de uma escola portuguesa viajem até tão longe para conhecer outros colegas. Suspiram, relembrando que no tempo deles não havia nada deste género. Ainda bem que tudo mudou. Despedimo-nos deles, não sem antes tirarmos a fotografia da praxe. Todos estamos animados. Deixamos a praça e enfiamo-nos em ruas mais estreitas. Vamos em busca de Rüstempaşa, uma mesquita que já sabemos ser uma verdadeira pérola. 
Luís Sousa 

Fotografia tirada por um simpático senhor português que encontrámos na praça junto à ponte Galata.
Este objecto foi um quebra-cabeças até percebermos para que servia. É colocado nas costas e ajuda a transportar grandes quantidades de mercadoria.