As crianças e jovens com
multideficiência apresentam inúmeras dificuldades em desenvolver atividades
significativas para a vida. Entre essas atividades encontram-se as que se
categorizam como atividades de lazer. Grandes limitações no âmbito da
comunicação e da mobilidade condicionam a participação em atividades que, para
qualquer pessoa, representam momentos significativos de enriquecimento pessoal,
de conhecimento do mundo e de convívio com os outros.
Espera-se que a escola seja um pólo
difusor de informação, conhecimento e hábitos de leitura. As bibliotecas
escolares têm tido um papel fundamental no desenvolvimento de competências de
literacia.
A leitura, o acesso ao livro ou à
informação digital, a literacia é hoje um direito de todas as crianças e jovens.
Entende-se
por literacia a capacidade de cada indivíduo compreender e usar a informação
escrita contida em vários materiais impressos ou digitais, de modo a atingir os
seus objetivos, a desenvolver os seus próprios conhecimentos e potencialidades
e a participar ativamente na sociedade.
Então colocam-se algumas questões
muito pertinentes: Uma vez que desde 2008 a inclusão das crianças e jovens com
multideficiência nas escolas é uma realidade, como podem eles aceder às
competências na área da literacia? Como será possível deixarem de ser ouvintes
passivos? Até que ponto a escola pode criar condições para que a informação
chegue a este grupo tão singular?
Tem sido
constatado que as crianças e jovens com multideficiência realizam aprendizagens
mais significativas se as competências na área da literacia forem trabalhadas
de forma sistemática, com materiais adaptados às suas necessidades (tecnologias
de apoio) e com a ajuda de uma outra pessoa. Segundo Fenlon,
McNabb & Pidlypchack, (2010) o uso de tecnologias de apoio à comunicação
por crianças com incapacidades graves tem sido documentado, em algumas experiências,
como uma estratégia útil que as pode ajudar a iniciar o brincar com pares em
salas de aula, efetuar escolhas, comunicar usando
símbolos pictográficos para a comunicação (SPC).
Cabe aos docentes
de educação especial o desenvolvimento das competências na área da literacia dos
seus alunos através da criação e utilização do material necessário para isso.
Neste momento os materiais que se utilizam são livros digitais (ou em papel)
adaptados (com SPC e com Língua Gestual Portuguesa em vídeo e áudio) e livros
multissensoriais. Os formatos apresentados são muito diversos porque se procura
chegar a uma população de alunos muito heterogénea que necessita de formas
muito individualizadas de apoio para chegar à informação. Segundo Nunes, (2011)
Existem livros táteis, caixas de histórias (book box), histórias
multissensoriais, sacos e sacolas com histórias (book bag), adaptação de livros
com texturas, adaptação da história com símbolos pictográficos à comunicação
(SPC), livros digitais, etc.
Literatura adaptada faz todo o
sentido para esta população específica de alunos também por outras razões não
menos importantes. Na verdade seria muito interessante se estes alunos, tal
como os restantes, sentissem verdadeiro prazer dos momentos de leitura,
participassem efetivamente na leitura e introduzissem no seu dia-a-dia esta atividade
de lazer. Para além deste facto e numa visão ainda mais exigente para todos nós,
professores e educadores, seria muito interessante conseguirmos que estes
alunos com multideficiência pudessem exercer do seu direito de acesso à informação (impressa ou digital) e
até conseguissem aumentar a sua participação no conto da história. Segundo
Fenlon, McNabb & Pidlypchack (2010) as experiências de literacia devem
integrar a rotina diária das crianças/jovens com multideficiência, para que se
tornem momentos previsíveis. Essas experiências devem ser significativas para
que elas possam envolver-se nessas atividades e desenvolver algumas competências.
Estas crianças podem, por exemplo, participar no virar das páginas ou
então participar na história recorrendo a um digitalizador da fala com o qual
podem responder a questões ou repetir passos da história.
Tendo em consideração a importância
de ampliar as experiências de vida das crianças e jovens com multideficiência e
reconhecendo a responsabilidade que a escola tem e proporcionar os meios para
que os direitos destes alunos sejam reconhecidos e exercidos, a Biblioteca Escolar
e a Unidade de Apoio Especializado para a Educação de Alunos com
Multideficiência da EB de Santa Catarina uniram esforços para concretizar o
Projecto “Literacia sem Barreiras”. Este Projeto, ainda em fase de aprovação,
tem três objetivos primordiais: criar vários tipos de livros adaptados,
promover a literacia entre os alunos com deficiência/multideficiência e
mobilizar toda a comunidade para o reconhecimento da literatura adaptada e
literacia para deficientes. Porque a literacia não tem barreiras.
Teresa Miguel
UAEEAM - Unidade de Apoio Especializado
para a Educação de
Alunos com Multideficiência
















