Alguém que em Sultanahmet olhe em
redor da praça central, dificilmente irá concentrar a sua atenção numa espécie
de pilar de pedra num estado de conservação aproximado ao da ruína. No entanto,
a placa indicativa da proximidade da Basílica Cisterna lembra imediatamente
algo que já tinhamos planeado visitar, se tal fosse possível. Sabíamos que era
um dos pontos altos de Istambul (embora se localize num substerrâneo) cuja
magnificiência não nos deixaria indiferentes.
A entrada faz-se através de uma
bilheteira que não deixa adivinhar nada de especial. Só quando iniciamos a
descida pela escadaria com uma inclinação que exige algum respeito e cuidado é
que começamos a sentir subitamente o ar a refrescar. Também a luminosidade do
exterior dá lugar a uma penumbra alaranjada. Ainda na escadaria temos o
primeiro fantástico contacto com a Basílica Cisterna.
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| Da
superfície, esta espécie de coluna em pedra é a única coisa que se vislumbra da
Basílica Cisterna. |
Dizem que a primeira impressão é
fundamental para formarmos opinião sobre algo ou alguém. Ficámos boquiabertos
com aquilo que estava perante nós. O contraste da escuridão com a iluminação
laranja estudada ao pormenor para conferir um ambiente perfeito ao local
consegue transportar-nos no tempo. De repente, parece que viajámos no tempo.
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| A placa
indica que estamos muito perto de entrarmos na Basílica Cisterna. |
Quando no distante ano de 532, o
imperador bizantino Justiniano ordenou a construção desta cisterna não terá
imaginado que muito séculos depois, iria tornar-se numa das principais
atracções de Istambul. São 336, as colunas dispostas em doze fileiras que
suportam o tecto da cisterna, que segundo o folheto que temos em mãos, tem 65
metros de largura e 143 de profundidade. Foi construída usando ruínas de outras
construções. É esse o facto que explica a presença de colunas, capitéis e
plintos que parecem ter vindo de edifícios imponentes, alguns provavelmente
religiosos.
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| Quem desce
a escadaria de acesso à cisterna tem uma primeira visão fantástica do que irá
vivenciar. |
Quase mil e quinhentos anos
depois de ter sido construída, continua a ser extraordinário a concepção
técnica desta construção. É algo grandioso demais que não é passível descrever
com exactidão através de palavras ou fotografias. Vamos percorrendo os
passadiços devagar, mirando as carpas que serpenteiam entre as colunas e admirando
todos os pormenores, cores e reflexos proporcionados pelos milhares de metros
cúbicos de água que ainda aqui repousam. Antigamente, tinha muito mais. Para
suportar a pressão da água, as paredes da cisterna têm quatro metros de
espessura, o que a tornou resistente a qualquer tipo de imprevisto, pelo menos
até aos dias de hoje.
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| Os tectos abobadados são simplesmente fantásticos. |
Mesmo ao fundo de todo este
percurso estão aquelas que porventura serão as duas maiores atracções da
cisterna. Falamos das duas colunas que estão suportadas por cabeças de Medusas.
Não se sabe de onde terão vindo originalmente mas o facto de uma estar virada
ao de cabeça para baixo e a segunda com a face de lado faz as delícias dos
visitantes. Toda a visita culmina neste espaço. É o local onde se concentra
mais gente, onde se ouve mais ruído e também aquele onde temos mais dificuldade
em desviarmo-nos dos pingos de água que vão caindo do tecto.
Só agora nos apercebemos o porquê
da palavra basílica associada a esta cisterna, já que nada aqui em baixo tem
algum aspecto religioso. Recorrendo à informação que está disponível,
percebemos que este reservatório foi construído debaixo de uma basílica e tinha
como função fornecer água um palácio que existia por aqui. Com o passar dos
séculos foi caindo em desuso e mais tarde no quase total esquecimento. Quando
os Otomanos conquistaram a cidade já nada restava da memória da cisterna.
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| São 336, as
colunas que suportam o tecto da Basílica Cisterna. |
A cisterna como que regressou à
vida, quando um estudioso das antiguidades e passado da antiga Bizância (o
primeiro nome que foi dado à cidade de Istambul) falou com alguns habitantes
das redondezas. Estes disseram-lhe que conseguiram obter água nas suas caves. E
por vezes, até peixes. O homem, de seu nome Petrus Gyllius, ficou espantando e
curioso e logo começou a investigar procurando lógica no que o povo considerava
uma espécie de milagre. Após uma busca intensiva descobriu uma casa por onde
consegui aceder à cisterna. O mais incrível é que os otomanos não lhe viram
utilidade nenhuma, passando a cisterna a ser um depósito de lixo e até de
corpos. Felizmente, não foi esse o destino final de tão belo exemplo das
capacidades de construção do Homem e os restauros que foram sendo realizados
desde o século 18 permitiram que todos possam deslumbrar-se com o cenário que a
Basílica Cisterna proporciona.
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| Os jogos de
luz dão um efeito mágico à Basílica Cisterna. |
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| Vista da
Basílica Cisterna onde podemos ver a disposição das colunas que a suportam. |
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| Uma das
famosas cabeças da Medusa que servem de base a uma das colunas. |
Aqui um vídeo que pode dar uma
ideia do que é a Basílica Cisterna.
Ainda como recomendação
cinematográfica não deixem de ver ou rever o filme de 1963, “OO7- Da Rússia com
Amor “007 - From Russia With Love” em que Sean Connery faz de James Bond. Esta
película tem como um dos locais de filmagem Istambul e uma cena memorável de
perseguição nesta mesma cisterna.
Luís Sousa