
Ainda nem entrámos no palácio
Topkapi e já percebemos perfeitamente o que o sultão Mehmet, o Conquistador
terá vislumbrado nesta zona, iniciando no distante ano de 1453 a construção do
seu futuro palácio. Por aqui viveu até 1481, ano em que morreu. Ouvimos isto
junto à fonte Sultão Ahmet III, o governante que tinha uma paixão imensa por
túlipas. Esta fonte é uma bela construção do século do XVIII. Junto a ela
podemos admirar a decoração baseada em motivos florais e os arabescos,
provavelmente frases e excertos corânicas que continuam a fascinar-nos pelo
efeito que produzem.
| Fonte do Sultão Ahmet III. Em segundo plano, o Porta Imperial |
Está na altura de atravessarmos a
Porta Imperial e entrarmos dentro da área do palácio. Rapidamente percebemos
que são muitos os motivos merecedores de serem fotografados, o que atrasa um
pouco o caminho do grupo. Como vale a pena, todos esperam pacientemente que os
fotógrafos de ocasião terminem a sua missão. Depois de cumpridas as
formalidades relacionadas com a segurança, damos por nós a contemplar um
extenso jardim. A placa informativa refere-se a esta área como “Second Court”.
Hora de mais uma lição de inglês, ao percebermos que esta palavra designa uma
extensa área aberta que é totalmente ou parcialmente rodeada por muralhas ou
edifícios. Estamos no segundo pátio. Se estamos no segundo pátio tem que haver
um primeiro pátio, também conhecido por Pátio dos Janissários. Abrimos o mapa
do palácio em que o primeiro pátio era local onde durante séculos os elementos do
exército otomano se preparavam para as paradas e formaturas militares e
apercebemo-nos que existem quatro destas áreas verdes no palácio. É altura em
que ficamos com a noção que será impossível ver tudo e que teremos que fazer
escolhas.
| No caminho principal que atravessa o “second court” (segundo pátio) |
A nossa atenção recai num edifício religioso à nossa esquerda. Trata-se da Aya Irini. Já não estranhamos os vários nomes que cada edifício pode ter. Esta não foge à regra. Também é conhecida por Haghia Eirene ou Igreja da Divina Paz. Foi uma igreja cristã, construída onde antes estava um templo pagão. Alguns séculos depois, o imperador Justiniano substituiu-a pela que estamos a ver agora. Corria o ano 540. Quando Mehmet, o Conquistador começou a construir o palácio, sendo muçulmano, obviamente não viu grande interesse na igreja. Esta acabou durante muito tempo a servir de arsenal militar, ou seja, o local onde se guardava o material militar necessário a equipar o exército.
| Aya Irini, também conhecida por Haghia Eirene (com toda a certeza uma homenagem à nossa D. Irene da biblioteca) e por Igreja da Divina Paz |
Janissários é outra palavra que
causa curiosidade entre nós. Perguntamos o que eram ou quem eram e ficamos a
saber que eram a elite do exército otomano. Eram tão temidos pelos inimigos do
exército otomano, como pelos próprios sultões, algo que nos deixa
impressionados. Não há fama que dure para sempre e estes janissários foram
perdendo a fama e a glória ao longo dos tempos. De respeitados pelos seus
valores, força e disciplina acabaram por se tornar uma guarda nacional
preguiçosa, com fama de insolentes e sem grande vontade de combater o inimigo.
| Ao fundo, os antigos estábulos imperiais |
Os janissários, os mercadores e
os homens de comércio podiam circular livremente por esta área, o que em certa
medida explica o facto de ainda não termos bilhetes. Antigamente, tal como
hoje, o segundo pátio era restrito. É aí que teremos que adquirir os bilhetes
de entrada. Só o sultão e a rainha-mãe tinham o privilégio de atravessar a
porta central que dá para o segundo pátio. Também nós entramos a pé. Logo a
seguir à bilheteira, uma pequena fonte lembra aos visitantes que era aí que o
executor imperial lavava os seus utensílios do seu tenebroso ofício após
decapitar algum nobre ou rebelde que tivesse ofendido de algum modo o sultão.
Luís Sousa
| Porta da Felicidade. É aqui a entrada para o terceiro pátio |
Video de uma reconstituição
histórica de uma parada de Janissários. Não deixem de reparar na curiosidade
dos enormes bigodes que eles ostentam.










