Há uns meses atrás veio parar
inesperadamente às minhas mãos um livro, do pedagogo Miguel Santos Guerra, que me proporcionou momentos especiais de
leitura. Esta compilação de crónicas sobre
educação levam-nos a reflectir naquilo que fazemos todos os dias, ensinar.
Começo por partilhar convosco uma fábula
extraordinária que Santos Guerra usou para ilustrar o valor da diversidade. E
passo a citar:
“ Certo dia, os animais do bosque decidiram fazer algo para enfrentar os problemas do mundo novo e organizaram uma escola. Adoptaram um currículo de actividades que consistia em correr, trepar, nadar e voar e, para que fosse mais fácil ensiná-lo, todos os animais se matricularam em todas as disciplinas.
O pato era um aluno destacado
na disciplina de natação. De facto, era melhor do que o seu professor. Obteve
um suficiente em voo, mas em corrida não passou do insuficiente. Como era de
aprendizagem lenta em corrida, teve de ficar na escola depois do fim das aulas
e abandonar a natação para poder praticar a corrida.
Estes exercícios continuaram
até que os seus pés membranosos se desgastaram, e então passou a ser apenas um
aluno médio em natação. Mas a mediania era aceitável na escola, de modo que
ninguém se preocupou com o sucedido, excepto, como é natural, o pato.
A lebre começou o ano lectivo
como a aluna mais distinta em corrida mas sofreu um colapso nervoso por excesso
de trabalho em natação. O esquilo destacou-se na disciplina de trepar, até que
manifestou uma síndrome de frustração nas aulas de voo, em que o seu professor
lhe dizia que começasse pelo chão, em vez de o fazer de cima de uma árvore. Por
último, ficou doente com cãibras por excesso de esforço, e, então,
classificaram-no com 12 em trepar
e com 8 em corrida.
A águia era uma aluna
problemática e teve más notas em comportamento. Na disciplina de trepar,
superava todos os restantes alunos no exercício de subir até à copa da árvore,
mas insistia em fazê-lo à sua maneira.
Ao terminar o ano, uma enguia
anormal, que podia nadar de forma excelente e também correr, trepar e voar um
pouco, obteve a melhor média e a medalha para o melhor aluno...”
Esta fábula faz-me
reflectir sobre a importância da diversidade na escola. Mais do que isso,
leva-me a admitir que a diversidade tal como a inclusão e outros tantos
conceitos são desejáveis na escola e na sociedade. Mas a verdade é que na
grande maioria dos casos são muito difíceis de interiorizar ao ponto de
fazermos deles uma prática natural, quotidiana, indissociável da nossa postura
como agentes educativos.
A diversidade na escola envolve o
respeito pelas diferenças dos outros na etnia, religião, cultura, língua...
Todos já lemos muito, discutimos e reflectimos sobre estes assuntos. Mas hoje,
queria fazer outra leitura desta fábula. O valor da diversidade na escola e
dentro da sala de aula. Afinal de contas todos temos “patos” esforçados e
“lebres” empenhadas, “esquilos” que atingem os objectivos de forma
extraordinária mas por caminhos não ditados pelo professor... O que preferem na
vossa sala? Alunos como estes ou “enguias anormais” que conseguem fazer um
pouco de tudo medianamente? (atenção que aqui o termo anormal não é
pejorativo, ver contexto da fábula) O que queremos nós? Alunos medianos ou bons
mas que se ajustam rigorosamente às regras estabelecidas e expectativas
previstas? O discurso que utilizamos é primariamente dirigido a esse modelo de
aluno mediano que apresenta competências expectáveis?
O currículo dos nossos amigos da
fábula era imposto a todos independentemente da sua diversidade. Muitos, senão
todos, sofreram com isso. O currículo dos nossos alunos também é de alguma
forma imposto, “não depende de nós”, poderão argumentar. Não é o professor de
Matemática, de Inglês ou Língua Portuguesa que decide a matéria que deve
leccionar no 9.º ano de escolaridade. Mas usemos as ferramentas que temos à mão
para contribuir para a diversidade na nossa sala de aula e, por extensão, na
nossa escola. Procuremos interiorizar mais ainda este conceito da diversidade
tornando-o uma praxis na sala de aula e fora dela também. Ao fazê-lo estamos a
ensiná-la da melhor maneira aos nossos alunos.
Teresa Miguel




















