segunda-feira, 14 de março de 2011

Diário Comenius (dia 5) - “Uma igreja toda construída em madeira”








Quinta-feira, 17 de Fevereiro

Não há grandes dúvidas quanto ao edifício mais emblemático do skanzen de Bardejov. Trata-se da igreja Católica Grega de Mikulášová. Era esse o local de origem desta igreja com quase três séculos, toda ela construída em madeira. Já corria o século XX, quando os habitantes a foram deixando de utilizar, certamente, devido ao facto de terem decidido construir outra junto à mais antiga. A partir daí, a decadência apropriou-se desta igreja rústica levando a uma degradação que só foi travada em 2003, quando se decidiu o seu restauro. Devolvida aos seus melhores dias, dois anos depois, voltou a enriquecer este museu ao ar livre. Depois de tanto tempo abandonado, voltou a servir para celebrar eucaristias e, claro está, estar aberta para visitas ao público.
O grupo dirige-se para a visita à igreja.
Rodeamo o edifício, explorando-lhe os pormenores. É uma das raras igrejas que apresenta o seu exterior pintado. Uma tonalidade vermelha escura na parte superior e os beirais pintados do mesmo tom de vermelho e de um azul vivo dão-lhe um ar diferente do monocromático tom característico da madeira. O mais engraçado é o facto de ter três relógios pintados na torre quadrada que não têm outra utilidade, senão o servirem de decoração. A paisagem branca que a rodeia, dá-lhe um ar imponente.
Entramos e o primeiro momento de espanto, prende-se com o facto de parecer ter um interior mais pequeno do que a vista exterior deixa adivinhar. Aqui dentro a madeira tem um tom brilhante, longe do ar desgastado que tem por fora. A parte mais fascinante do interior é sem dúvida a divisória entre a sala onde nos encontramos e o altar que está semi-escondido por este espécie de parede iconográfica em talha barroca. Não conseguimos explorar toda a igreja de imediato porque entretanto é-nos comunicado que um dos guias irá explicar-nos um pouco da história deste monumento religioso. A informação vai sendo dita em eslovaco e traduzida para inglês, por um dos anfitriões, o professor Lubos. Informação que aliás se revela de grande utilidade, depois de anotada para posteriormente ser utilizada no nosso diário.

Vista exterior da igreja.
Depois da explicação a maioria das pessoas saem. É a altura ideal para dar uma espreitadela na parte da igreja, que em abono da verdade, não percebemos muito bem se nos está vedada. A divisória em talha barroca tem três entradas, escolhemos umas das laterais, de forma a conseguir espreitar. Vemos um altar bastante bonito e diversos acessórios ligados à liturgia. Agora que a igreja está vazia, é altura ideal para tirar algumas fotografias antes de sairmos para a rua.
O momento em que ouvíamos as explicações sobre a história desta curiosa igreja de madeira.
Uma das coisas que estranhámos (simplesmente pelo facto de não ser comum nas igrejas portuguesas) é que não é permitida a entrada de mulheres na parte do altar. Outra coisa curiosa, a termos entendido bem, é que não foram utilizadas pregos na construção na construção da igreja. Tudo resulta do recurso a técnicas de encaixe, o que faz com que todo o edifício se mantenha. Realmente, em posterior verificação não encontramos qualquer espécie de prego. No mínimo, impressionante.

Luís Sousa



Entrada central para o altar, escondido atrás de uma divisória em talha barroca.


O altar em madeira escura da igreja é uma das partes mais bonitas do templo.

Pormenor de uma lateral da divisória de talha barroca.



Panorâmica da zona onde se sentam os crentes e os visitantes.

Diário Comenius (dia 5) - “Let there be snow!”








Quinta-feira, 17 de Fevereiro


Alunos da Eslováquia, Polónia, Portugal e Turquia.
E ao quarto dia, o primeiro de nós caiu no chão! Calhou à Sara ser a primeira a testar a textura da neve do “skanzen”. Para fortuna dela, a neve aqui estava macia e suave e não com a superfície gelada que já experimentámos em Kosice. Sendo assim, tudo acabou bem, com toda a gente a rir. Há qualquer coisa de fascinante no ar desamparado que expressamos quando perdemos o equilíbrio nestes terrenos.
A semana já vai longa e o convívio entre todos é cada vez mais profundo. Isto é perfeitamente visível nos mais novos, que ultrapassam todas as barreiras que a língua poderia criar. Todos se entendem, de uma forma ou de outra, falam-se línguas misturadas, gesticula-se o mais que se pode, o importante é que todos se entendam. E a verdade, é que é mesmo isso que acontece.
Portuguesas em acção atacante contra um colega polaco.
Tivemos algum tempo livre para podermos visitar as casas que se distribuem pelo espaço deste museu ao ar livre. Muitos dos alunos divertem-se arremessando bolas de neve uns aos outros. O silêncio que se fazia sentir aqui deixa rapidamente de ser uma realidade, substituída pelo riso e por gritos mais ou menos desesperados de quem é atingido por estes projécteis.
Portuguesa persegue eslovaco, que persegue outra portuguesa, que corre atrás de um polaco, que tenta alcançar uma outra portuguesa. 
Não é uma casa portuguesa com certeza! É uma casa rural eslovaca típica.
São muitas as fotografias que se tiram em grupo, aprendem-se expressões engraçadas em turco, polaco ou eslovaco. Todos se riem quando alguém pronuncia palavras que são impronunciáveis. A língua enrola-se à procura de sons e sílabas que não parecem não sair. Nós sentimos isso em relação às línguas que nos são mais estranhas, os outros sentem isso em relação ao português. Todos acham a língua portugues dificílima e sentem imensa dificuldade em dizer algo. No entanto, nada disso impede que a neve continue a voar de um lado para o outro e que o que se vê por aqui, seja um grupo enorme de pessoas diferentes, mas felizes.
Luís Sousa

“Snowhearts!” Heartwork by Margarida Baptista e Sara Funcheira.

Diário Comenius (dia 5) - “Explorar o Skanzen”








Quinta-feira, 17 de Fevereiro

Uma das contingências de viajar com grupos numerosos, prende-se com o facto de, em situações em que é necessário algo como comprar bilhetes, tudo se tornar demorado. Se juntar-me à equação, o facto de o grupo ser constituído por nacionalidades diversas, a tarefa complica-se ainda mais um pouco. O facto, é que nada disto incomoda minimamente, quando estamos num local pela primeira vez, em que tudo é novidade. Deste modo, fomos ocupando o nosso tempo, explorando as proximidades. Não faltava neve, e aqui e ali, algumas esculturas e placares informativos, que nos ocuparam esse período de tempo.
Vários exemplares de arquitectura popular eslovaca.
A quantidade de neve puxava a alguma brincadeira e rapidamente, os alunos (e vá lá alguns professores) foram ensaiando algumas bolas de neve que precisavam de ser testadas, de preferência em terceiros. Já havia grande animação quando entrámos no “Skanzen”.
Como já referimos num outro artigo, um “Skanzen” é basicamente um museu a céu aberto. Neste caso um museu etnográfico. Felizmente, há informação disponível em inglês, o que nos permitiu saber mais sobre como esta ideia se implantou aqui. Tudo começou em 1920, com uma ideia de um grupo de pessoas ligadas ao museu da Eslováquia Oriental. Na altura, parecia iminente o desaparecimento de exemplares de arquitectura popular eslovaca. A inspiração para este tipo de museu, parece ter vindo da Suécia, assim como a palavra que lhe dá o nome, “skanzen”. A transferência da igreja de Mikulášová em 1926-32 foi o ponto de partida. No entanto, a falta de recursos decretou a paragem do desenvolvimento do museu. Só no final dos anos 50, conseguiram finalizar o projecto, já que nesta época as termas também sofreram alterações. A ideia era que este museu ajudasse a trazer até às termas mais visitantes, daí terem sido acrescentadas ao longo dos anos mais alguns exemplares.
O museu ainda tem um tamanho considerável, o que faz com que o grupo se vai dispersando e dirigindo-se para esta ou aquela casa, consoante algo faz chamar a atenção. O percurso entre os vários exemplares é constituído por uma boa camada de neve fofa, o que mais uma vez contribui para que se instale um clima divertido entre os presentes, ajudado por algumas quedas de quem anda um pouco mais distraído.

A igreja que foi transferida de Mikulášová, é sem dúvida o grande destaque deste museu.
Conforme vamos deambulando pelos vários edifícios, vamo-nos apercebendo das várias características da arquitectura da Eslováquia Oriental e outras com influências de alguns países em redor como é o caso da Hungria ou da Ucrânia. Áreas geográficas com nomes como Šariš, Zemplín, Spiš ou Abov, soam para nós, um pouco estranho, porque nos são desconhecidas. Restou-nos apreciar devidamente os vários exemplares arquitéctónicos, que tanto exterior, como interiormente, é muito rico. Esta vista permitiu, sobretudo, apreender como era a vida quotidiana destas populações. 





Os pormenores referentes ao dia-a-dia do povo eslovaco e das suas actividades estão muito bem representados neste museu.

domingo, 13 de março de 2011

Diário Comenius (dia 5) - “Bardejov Spa”






Quinta-feira, 17 de Fevereiro


Imponente castelo visto no trajecto Secovce-Bardejov.
Esta quinta-feira acordou fria. Em Secovce já não neva, só a iremos encontrar em quantidades abundantes, quando chegarmos ao nosso primeiro destino da manhã: Bardejov. Mais propriamente, Bardejov Spa, que fica a três, quatro quilómetros da cidade com o mesmo nome. O caminho para lá leva-nos para próximo da fronteira com a Polónia. Particularidades de estarmos mesmo num dos extremos da Eslováquia. Ora estamos perto da Hungria, ora da Ucrânia, ou como agora a aproximarmo-nos da Polónia.
O caminho para Bardejov faz-se por estradas não muito largas. Apenas uma faixa para cada lado, o movimento de veículos que se verifica, não parece pedir muitas larguesas. Por aqui não se conduz com velocidades excessivas, ainda para mais com estas condições climatéricas, não há muita necessidade de arriscar. Não há engarrafamentos e as pessoas parecem deslocar-se com toda a calma do mundo.

O fascínio exercido por placas de trânsito ou sinais com ortografia estranhas para nós é sempre enorme.
Conforme vamos anulando os quilómetros que nos separam de Bardejov, vamos passando localidades que desfilam perante o nosso olhar sem que haja grandes registos a fazer. Há no entanto, o castelo, bem no alto de uma elevação que pede um olhar atento. Ao longe parece ser bastante interessante. Infelizmente, não está prevista nenhuma paragem e por isso, só dará para uma tentativa de fotografia tirada do interior do autocarro. Contam-nos que foi construído ali, numa lógica de defesa dos ataques otomanos, na época em que este império lutava constantemente com o império austro-húngaro pela posse destes territórios.
O edifício do hotel Astória é um dos mais imponentes do conjunto de Bardejovské Kúpele.
Finalmente, chegamos a Bardejov. Não paramos ainda. Seguimos caminho para “Bardejovské Kúpele” (Termas de Barjejov). Saímos da cidade e começamos a ascensão até chegarmos à estância termal, conhecida pelas suas águas quentes. Ao longo de muitas décadas recebeu muitas personalidades ilustres, que procuravam aqui, no sossego da montanha, resultados que melhorassem a sua saúde, ou então somente para descansar. Após andarmos um pouco, surge-nos a estátua da imperatriz Elisabeth, mulher do imperador Francisco José da Áustria-Hungria e que o mundo conheceu como Sissi. No entanto, há registos da sua utilização que são muito anteriores. Datam de 1247, reinava por aqui, o rei Béla IV da Hungria, as primeiras referências a estas águas. A partir do século XV, passaram a ser comuns a utilização destas águas para tratamentos.



 
Hotéis que albergam há muitas décadas quem procura aqui as águas destas termas.
A paisagem é fabulosa, cenário de montanha em que reina um silêncio quase absoluto. Só se ouvem alguns pássaros e claro está, o nosso grupo, que é grande e que por isso é fonte de algum ruído. É até ao momento, o local onde estivemos com mais neve, tudo está coberto de neve, algo que nos dá um entusiasmo especial. Há imensas árvores arbustos, muito diferentes entre elas. Supomos que na primavera tudo isto deve ficar bastante florido.




Estrutura de apoio às termas.

Ao nível das construções, sobressaem os magníficos edifícios de finais do século XIX. Ainda existem vários. No entanto, aqui e ali, existem também algumas construções com apenas algumas décadas, que deverão ter sido construídas numa óptica de apoio a estas termas, mas que de algum modo mancham aquilo que seria perfeito, se não estivessem lá. O que nos traz a estes lados é a visita ao “skanzen”, nome dado aos museus etnográficos a céu aberto, que recriam as construções típicas da Eslováquia.

Uma das igrejas de Bardejovské Kúpele.

Diário Comenius (dia 4) - “A nova biblioteca vista da Eslováquia”


 




Quarta-feira, 16 de Fevereiro

A relação estreita entre a nossa biblioteca e o projecto Comenius existe desde o dia um deste projecto. Começou no momento, em que aprovado o projecto, alinhavámos e definimos em conjunto, algumas ideias que poderiam fazer com que o nosso trabalho resultasse em algo bom e visível, não só para a escola, mas para a comunidade em geral. Sendo a biblioteca um epicentro da escola, sempre foi nossa convicção que parte significativa do projecto “Medicinal Herbs in Europe” teria que passar pelo trabalho conjunto. E assim, tem acontecido, tanto em Portugal, como agora na Eslováquia, nesta semana em que o projecto decorre por aqui.
Nesta semana, a comunicação com a biblioteca tem sido feita a horas meio impróprias. Tanto em Portugal, como na Eslováquia, os dias têm sido muito ocupados. Sobram as altas horas da noite ou os amanheceres bem cedinho, em que se enviam os relatos das actividades que vamos desenvolvendo por aqui e também das curiosidades que se vão vendo aqui e ali. No entanto, este artigo, não se refere a nada que tenha acontecido ou que tenhamos visto por aqui. Diz respeito, ao como temos visto, via computador, toda a renovação que anda a ser feita na biblioteca.
O acto de enviar algum artigo tem sido, geralmente antecedido, pela verificação, na caixa de correio electrónico, que também nós, em Secovce, recebemos novidades de Portugal. Não só escritas, mas devidamente documentadas fotograficamente. Fotografias que chegam, cheias de pormenores de humor, apesar do ar extremamente atarefado de todos os que por lá andam a trabalhar. Esse bom humor vem impresso nas fotografias que nos têm deixado bem divertidos por estas bandas.
E daqui de longe, o que se nota de diferente na biblioteca. As fotografias parecem indicar mais luz, talvez pelo modo como estão agora posicionadas as estantes dos livros. Parece haver mais espaço, apesar de o espaço parecer ser o mesmo, partindo do princípio que ninguém se entusiasmou e derrubou uma parede ou duas. O novo mobiliário é bonito, a parte da recepção ficou mais acolhedora, as madeiras ficam bem nessa cor clara e o design moderno das estantes também ajuda bastante. Apesar de ainda muita coisa estar fora do sítio certo, antevê-se que as mudanças estão a ser para melhor.
Ficamos à espera de mais novidades. Terminamos por hoje com um  “Gratulujeme k novej knižnice“ , que é como quem diz (esperamos nós) em eslovaco, “parabéns à nova biblioteca”.
Luís Sousa



sábado, 12 de março de 2011

Diário Comenius (dia 4) - “Lacinhos”








Quarta-feira, 16 de Fevereiro

Um dos (muitos) exemplares de laços utilizados pela Margarida ao longo destes dias
A moda é um fenómeno engraçado. É interessante perceber como algo que num local é usado por todos, sem que realmente alguém pense muito nisso, pode noutro local, ser algo a que nunca ocorreu ninguém usar. Algumas vezes discuti isso com os meus alunos. Afinal o que é preciso para que algo, seja peça de vestuário ou acessório ganhe o seu espaço próprio? Às tantas não é preciso mais que uma coincidência ou um toque de originalidade.
Originalidade foi o que algumas raparigas eslovacas viram no hábito engraçado que a Margarida tem ao usar laços para prender o cabelo. Já são bastante conhecidos na nossa escola, em todos os seus vários formatos e cores. Aqui foram novidade e alvo de bastante atenção. Como resultado disto, a Margarida arrisca regressar a Portugal com menos uns quantos laços na mala.